quinta-feira, 31 de outubro de 2013

notícias

as manchetes dos jornais não são anunciações.

as letras escrevem todas as coisas, todos os acontecimentos. não existe evento que não se acerte em palavras e elas não conhecem previsões porque as palavras são, não serão.
e as palavras, mais do que os eventos, nos atingem as peles em plena manhã. as frases, talvez sentenças, vêm em disparada anunciar as novidades dos homens: suas ações e pensamentos, sentenciando nossa existência.

letras de todos os tamanhos, escritos de todas as extensões disponíveis em demasiados lugares e em nossa mente até ser uma reflexão inútil em um colocar de sapatos. assim nos servem as notícias que já passaram e as que virão, pois o que não falta é a certeza de que as notícias de amanhã sempre existiram.




segunda-feira, 21 de outubro de 2013

das nuances da dança

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

(Carlos Drummond)




eu sinto à minha maneira e há amor pra todo sentir.

há amor de dupla e de quadrilha e já bailamos em todas estas rodas.

todo alguém cantou letras, poemas e tradução de amor destas combinações.

o amor de dupla, enquanto no mesmo passo, é braço destro e canhoto.


mas é no amor de quadrilha, que nem sempre festeja em mesmo ritmo, onde dançam todas as vontades. assim, só se pode marcar o chão: os pés, na coreografia, machucam o mundo e quem ama. mas aí, quem repete a dança, já conhece o espetáculo. as palmas dos pés rachados, mas o amor se crê digno, novamente, à espera de todas as aceitações.


porém é esta aflição que dá toda aquela imensidão que pulsa em um sábado à tarde, sempre.




domingo, 13 de outubro de 2013

refletir de aniversário ou diário do tempo

temos tempo do tempo: a idade dos nossos anos.

o tempo já foi de todas as coisas, mas ele não nos é por inteiro. daí vem a dádiva graça do viver desconhecido. se o tempo nos fosse revelado, em seus detalhes e pensamentos, nada haveria mais de estréia neste mundo.

todos os despautérios já foram comunicados ao tempo.
os sentimentos todos o tempo já tocou.
todas as hesitações por ele foram sentidas.
das inteiras fantasias o já tempo se vestiu.

a totalidade é coisa do tempo e por ele ultrapassa sem fim. e também cala todo o seu silêncio para inaugurar, diariamente, nossa possibilidade de individualidade: é o seu presente. mais valioso do que um exemplar de vida extensa e seu diário inconfessável. (onde viga todas as nossas histórias).





domingo, 6 de outubro de 2013

as palavras repetidas sobre o amanhã

amanhã não é um mistério.

amanhã pode ser, inevitavelmente, como ontem. o dia muda de número, o dia muda de nome, mas não tem mais seu "tal" de ineditismo.
por que parecemos desvendar antecipadamente o dia? é perigo ou magia confirmar os acontecimentos do amanhã?

não tive mais a sensação de que o surpreendente ocorre a qualquer momento. quanto vivemos a fim de um dia deste? mais vale ele do que a vida inteira?
a vida, então, é esta espera. a felicidade é o encontro com o ineditismo de algum dia. o resto é segunda-feira cheia de perguntas. a felicidade então não é continuidade, ela não pode ser um ano de felicidade. felicidade é o que se percebe quando se passou. a felicidade não é consciente. assim, os desejos devem ser breves também, porque vontades realizadas por mais de três dias voltam a ser ontem.

e todas as coisas de ontem ainda permanecem, nada desfalece em poucas horas. a vida, assim que expira, ainda parece viva. e ainda assim, precária, resta convidá-la à dança, o cotidiano do dia é nossa culpa e não de suas 24 horas.